segunda-feira, 17 de maio de 2010

CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM

Questão norteadora: o que é a linguagem?

Conforme as pessoas crescem, elas passam, de uma maneira geral, a falar e a escrever sem se indagarem acerca do que a linguagem significa. Se uma reflexão mais sistemática em torno dessa questão, não é pré-requisito para que as pessoas adquiram a fala e a escrita, tal indagação é imprescindível para quem atua, direta ou indiretamente, com o processo de ensino e aprendizagem dessas modalidades de linguagem.

Porque fazemos tal afirmação?

Primeiro, porque barreiras e limitações se colocam para o profissional que pretende ensinar algo que não se reflete o que representa.

Segundo, porque partimos do pressuposto de que a aquisição da linguagem e do conhecimento são processos que caminham paralelamente.

Terceiro, porque os diferentes métodos de ensino e de reabilitação pressupõem diferentes modos de conceber o sujeito, a linguagem e a aprendizagem. Assim, a possibilidade de fazermos escolhas de forma consciente e crítica implica a identificação de tais diferenças e o reconhecimento de suas posições.

Para aqueles que ainda não refletiram sobre em que consiste a linguagem, como as pessoas a adquirem, qual o seu papel em nossa sociedade e para aqueles que já iniciaram essas reflexões mas necessitam aprofunda-las, fazemos um convite para participarem ativamente desse curso.

É fundamental fazer algumas considerações relativas aos termos que serão utilizados em nossas aulas. Ao utilizarmos a palavra linguagem estaremos nos referindo às suas diversas modalidades, ou seja, à linguagem falada, à escrita, à corporal. Para especificarmos uma ou outra forma de sua realização, adotaremos termos como linguagem oral, fala, oralidade ou, ainda, linguagem escrita, leitura e escrita.

Agora vamos verificar como as suas posições se situam em relação aos estudos que vêm sendo elaborados, especificamente, nos campos do conhecimento que têm como objeto de análise e intervenção a linguagem oral e escrita, ou seja, a lingüística, a educação e a fonoaudiologia. Podemos perceber que, de uma maneira geral, tais estudos se opõem ou se aproximam, conforme as posições que assumem em relação à concepção de linguagem. Nesse sentido, identificamos três perspectivas predominantes:

* Linguagem = Comunicação

Conceber a linguagem como comunicação significa estar de acordo com o pressuposto do que ela existe para que as pessoas possam transmitir ao(s) outro(s) sentimentos, pensamentos e conhecimentos, ou seja, de que ela é um instrumento de comunicação. Com base nessa perspectiva instrumental, a linguagem é tratada como um sistema de código.

Conceber a linguagem como comunicação significa, também, acreditar que ela se processa a partir do seguinte mecanismo:


Como podemos notar, a partir dessa abordagem, a efetivação da linguagem pressupõe que exista um sujeito-emissor, uma mensagem a ser transmitida, um instrumento-código capaz de transmitir a mensagem e, por fim, um sujeito-receptor para recebê-la. Dessa maneira, a linguagem, como algo externo aos sujeitos, é considerada como um código estável, imutável e fixo que deve ser aprendido para que a comunicação se efetive. Enfim, a linguagem é abordada como um produto acabado que se transmite de geração a geração.

* Linguagem = Representação

Pensar a linguagem como representação significa acreditar que ela tem a função de representar, de dar forma a conceitos e significados que têm uma existência prévia no pensamento dos indivíduos. Nessa direção, as linguagens oral e escrita são veículos de conteúdos e significados que se encontram nem nível mais primário e interno dos sujeitos.

Cabe ressaltar que a noção de representação, central em diferentes campos de conhecimento como da Psicologia e da Educação, não está restrita apenas à linguagem, mas a qualquer atividade mental. A capacidade de representação é aqui concebida como inerente ao ser humano e como um fenômeno psíquico, ligado à consciência e que ocorre intencionalmente. Ligado à consciência porque consiste num processo cognitivo que teria o sujeito em sua origem. Intencional, porque as representações, em razão de sua origem, seriam passíveis de compreensão, uma vez que geradas por motivações explicáveis.

As premissas que orientam a noção da linguagem, enquanto representação, foram descritas com clareza por Mota (1995, p. 28):

O sujeito (da Psicologia) está na origem de suas representações, que resultam dos procedimentos de percepção e generalização mediante os quais esse sujeito chega a conhecer as coisas do mundo; assim, o papel do outro é desnecessário ou relativizado nesse processo (...) as representações são fonte de verdade, pois parte-se da possibilidade de sua adequação à coisa representada (...) os processos cognitivos têm uma existência prévia e são determinantes das interferências da linguagem na construção de representações (...) a linguagem oral e escrita são veículos de representações e, assim como as outras coisas do mundo, também podem ser objetivadas e representadas.

Assim, a partir da linguagem, os indivíduos representam idéias ou significados supostamente presentes no seu entendimento. Tais representações são constituídas por imagens, símbolos, que evocam o que deve ser representado, sem que sejam transformados pelos sujeitos.

Apresentadas as principais ideias que norteiam as concepções de linguagem como comunicação e como representações, propomos uma reflexão acerca de algumas questões:

1. Será que falamos e escrevemos apenas para nos comunicar?

2. Se a função da linguagem é representar ou comunicar pensamentos, conhecimentos, informações, como esses aspectos são constituídos?

3. A linguagem serve para comunicar verdades ou mentiras ou para provocar efeitos e transformações em nós mesmos, nos outros e na realidade?

Para enfrentar e buscar respostas a essas questões, propomos um desafio teórico. Esse desafio foi, inicialmente, proposto por Claudia Lemos (linguista brasileira, cujas posições teóricas, têm sido tomadas como referência em Âmbito nacional e internacional) e assumido por nós.

O desafio é tomar como objeto de estudo a linguagem enquanto atividade do sujeito, e enfrentar assim a indeterminação, a mudança e a heterogeneidade desse objeto que se refaz a cada instante de seu uso. (LEMOS, 1992, p. 14)

* Linguagem = Prática Social

Certamente a linguagem é utilizada como instrumento, por ela comunicamos aos outros nossas experiências e estabelecemos com os outros laços “contratuais” porque interagimos e nos compreendemos, influenciamos os outros com nossas opções relativas ao modo peculiar e ver e sentir o mundo, com decisões consequentes sobre o modo de atuar nele. Mas se queremos imaginar esse comportamento como uma ação livre e ativa e criadora, suscetível de pelo menos renovar-se ultrapassando as convenções e as heranças, processo em crise de quem é agente e não mero receptáculo da cultura, temos então que aprende-la nessa relação instável de interioridade e exterioridade, de diálogo e solilóquio: antes de ser para a comunicação a linguagem é para a elaboração; antes de ser mensagem, a linguagem é construção do pensamento; e antes de ser veículo de sentimentos, ideias, emoções, aspirações, a linguagem é um processo criador em que organizamos e informamos as nossas experiências. (FRANCHI, 1992, p. 9-39)

Estudos que conceberam a linguagem enquanto prática social oferecem elementos para compreender que, apesar de a comunicação e representação constituírem-se como funções da linguagem, elas não definem a sua natureza. Em outras palavras, podemos representar ou comunicar a partir da linguagem, contudo, a linguagem implica um fenômeno que extrapola tais funções. Concebe-se, portanto, a linguagem como uma atividade constitutiva dos sujeitos, das relações sociais e das formas de organização da sociedade.

Assim, contrariando as visões instrumentais ou de representação, entende-se que a linguagem não está subordinada ao pensamento, tampouco decorre deste, uma vez que tem função estruturante e organizadora. A partir dessa perspectiva, nega-se o papel central atribuído à percepção e À cognição que, dadas como uma herança genética, comandariam a apreensão do objeto situado fora: a linguagem em suas modalidades oral e escrita. Entende-se, ainda, que não há possibilidade de aquisição de conteúdos cognitivos ou domínios do pensamento fora da linguagem, nem possibilidades integrais de linguagem fora dos processos interativos humanos.

Como um dos técnicos que considera que a linguagem deve ser abordada como constitutiva dos processos de significação e dos sujeitos, podemos destacar Bakthin. Ao perceber o homem como ser da linguagem, entende que a consciência e o pensamento tem como possibilidades as diferentes modalidades de linguagem, e que estas não se estabelecem fora dos signos sociais, mediadores das inúmeras e complexas interações sociais.

“A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra se apóia sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor, que constitui e organiza a atividade mental do sujeito, enfim, que determina sua orientação.” (BAKTHIN, 1986, p. 113)

Ao atribuir um papel de destaque à linguagem na formação da consciência e da personalidade, ao abordar a cognição e a psique como constituídas a partir de processos dialógicos e de significação, sujeitas às contingências próprias das relações intersubjetivas e sociais, Vygotsky (1989) também oferece explicações acerca das funções organizadora e reguladora da linguagem.

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Um comentário:

  1. Cara Vanessa, você poderia me indicar a fonte desse artigo? Agradeço muito. Abs

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